Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 Câmara Municipal de São Paulo
 Prefeitura do Município de São Paulo
 Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo
 UOL


 
Gabinete


"Normais"

Saí agora há pouco do cartório eleitoral em que foram ouvidas algumas das testemunhas do processo que o PT move contra mim por eu ter saído do partido antes da conclusão do mandato.

Pelo PT, depuseram três vereadores – o presidente do Diretório Municipal e dois ex-líderes da bancada na Câmara Municipal.

O que eles disseram, basicamente, foi que eu sempre me entendi muito bem com todo mundo, nunca reclamei de nada, estava sempre muito feliz no partido. Depois de alguma insistência nas perguntas, admitiam divergências aqui e ali – tudo coisa “normal na política”.

Pois é, vai definir o que é “normal na política”...

 

***

Independentemente da definição do que é divergência “normal”, fiquei furiosa quando disseram que eu nunca me indispus seriamente contra as decisões e orientações da liderança do partido na Câmara.

Em várias ocasiões, na reunião semanal da bancada, eu disse “NEM F***!”, diante de um pedido para votar assim ou assado.

Eu sabia que devia ter gravado. Aliás, várias vezes eu saí da reunião e voltei para o gabinete dizendo: “Eu devia ter gravado a reunião, porque se eu contar vocês não vão acreditar!”. Eu anotava em papel de rascunho lia alguns argumentos usados para defender nossas “estratégias em plenário” e os assessores ficavam passados... Exemplo: “O projeto do Executivo é bom, mas não vamos botar azeitona na empada dos tucanos. Temos de ter em mente o quadro eleitoral em 2006, então vamos obstruir a votação”, blá-blá-blá. Eu ficava doida: “O projeto é bom? E nós não vamos votar nele exatamente porque ele é bom?”. “Sim, porque uma coisa é a análise de mérito, e outra é a tática de plenário em função da estratégia política...”. Blá-blá-blá.

 

***

Os tucanos, por sua vez, fazendo a mesma coisa em Brasília. Dizendo que o mais importante era “ferrar o Lula”, e dá-lhe Severino presidente da Câmara Federal.

Que beleza.

 

            ***

            Às vezes, a resposta das testemunhas do PT era “não me recordo”. Normal não se recordar de algumas coisas, mas tem episódios que deveriam ser inesquecíveis.

            Por exemplo: a eleição dos presidentes das Comissões Permanentes. Só depois de estar na Câmara eu soube que a eleição é combinada antes entre os líderes dos partidos. Os vereadores se reúnem, dizem “eu voto em fulano para presidente da Comissão”, mas o voto não foi decidido por eles, e sim pelas lideranças das bancadas. Que fazem lá seus acordos - “O PT fica com duas comissões menores, o Centrão com duas grandes e três pequenas, o PSDB fica sem nenhuma” – e discutem ou apenas comunicam às bancadas.  

            Pois eu fui comunicada de que a Comissão de Administração Pública, da qual eu seria membro, deveria votar em Agnaldo Timóteo, do PP, para sua presidência.

            Eu disse que não poderia ir à Comissão e dizer “eu voto nele” porque, por motivos diversos, eu simplesmente não votaria nele - não votaria nele para vereador em São Paulo, muito menos para presidente de uma Comissão. E que não via como poderia explicar aos meus eleitores: “Ele não era meu candidato, mas o partido fez um acordo com o Centrão e eu tive de votar nele”.

            “Soninha, você tem de entender que política é assim, o Parlamento é assim, aqui é assim”. “Eu não sou assim! Não vou votar a favor de algo que sou contra porque os líderes das bancadas fizeram um acordo!!!”.

            Como seria péssimo para o acordo (no entendimento deles) que eu votasse contra (embora os outros 6 votos “acordados” fossem mais do que suficientes para elegê-lo), o partido decidiu me colocar em outra comissão (a de Constituição e Justiça). E por causa dessa “rebeldia” acabei fazendo parte de uma das comissões mais prestigiadas da Câmara...

            Só falta esquecerem que eu fui pra CCJ para evitar aborrecimentos com o Centrão – e dizerem que fui “prestigiada” pelo partido na ocasião...

 

            ***

           Agnaldo Timóteo defende muito o Lula. Também defende a ditadura. E acha esse negócio de "combate à exploração sexual de adolescentes" uma hipocrisia, porque as meninas de 14 anos "já têm peito, usam aqueles shortinhos... Ganham um cascalho do turista, o que é que tem?"

 

            ****

            Mau humor mau humor mau humor mau humor



Escrito por Soninha às 19h56
[] [envie esta mensagem] []



Livros, quadros e barracos

“Você conheceu o Conde?”

Embatuquei. Queria dizer que sim, mas confessei a verdade: “Eu tenho impressão que sim, mas posso estar fantasiando”.

O interlocutor riu: “É, o Conde tinha isso, era meio mito”.

 

 

Na época da faculdade, eu era duríssima, trabalhava à tarde e à noite, tinha duas filhas pequenas e quase não ia ao cinema (resumindo, não tinha tempo nem dinheiro). Precisava escolher o que assistir como quem escolhe candidato a prefeito (ehehehe) – uma escolha errada significaria muito tempo perdido. Era uma chance por mês ou por bimestre.

 

Em compensação, lia tudo sobre todos os filmes, desde os tempos de colegial. Publicações nacionais e estrangeiras, livros e revistas, em um mundo pré-internet. Por isso, às vezes ficava horas conversando com amigos sobre determinado filme, o roteiro e a fotografia, o set de filmagem e as interpretações, a cenografia e a trilha sonora – até que, um bom tempo depois, quando eu dizia “não, eu não vi o filme”, eles não se conformavam... “Eu li o filme”.

 

 

O mundo é assim: cheio de gente (às vezes, jornalistas encarregados de escrever uma resenha ou crítica) falando sobre o que não viu... Nos tempos de MTV, acontecia muito de nossas equipes de reportagem passarem a noite cobrindo um festival e depois encontrarem um jornalista que simplesmente perguntava: “E aí, como foi lá?”. “Você não estava?”. “Eu não, fui dormir/ fui beber/ fui para outro lugar...”. Mas ele escrevia sobre os shows assim mesmo.

Por isso também eu gosto de ler muitas opiniões/descrições sobre determinado assunto antes de formar a minha... Com a internet, ficou mais fácil. Mais confiável? Não necessariamente...

 

 

Voltando ao Conde: passei por tantos lugares onde ele esteve, conheci tantas pessoas que o conheciam, vi obras dele e ouvi comentários sobre ele, que já não sei se eu cheguei a encontrar com ele pessoalmente ou apenas “li o filme”...

 

***

Tendo ou não apertado a mão dele em algum evento, não sabia muitas coisas. E ontem aprendi mais - fui ao lançamento do livro “Conde”, das Edições Toró, na Casa de Cultura do Butantã (e foi lá o diálogo de abertura desse post).

 

 

13 quadros dele estão expostos até setembro. Parei diante de um deles um tempão, fui, voltei, fotografei várias partes. Poderia ficar 20 minutos olhando.

 

Assim que bati o olho, pensei: “Parece a São Remo” (favela atrás da USP). Logo chegou uma menina: “Nossa, agora lembrei de Salvador!”. Também podia ser um morro do Rio... Favela, favela “pura”, favela com tudo que ela tem em tudo quanto é lugar. Menino na laje, menino subindo no poste pra pegar pipa, cachorro latindo, a velha reclamando, criança brincando no monte de areia da construção, forró no terraço, sinuca no boteco, fumaça de churrasco, gato e passarinho, um mundo de tijolos vermelhos sem acabamento.

 

Não à toa, a capa do livro é um pedaço desse quadro. E todas as ilustrações do post também.

 

 

***

Leio que o Conde, como eu, foi educado por freiras católicas – só que (“pequena” diferença) eu estudei em colégio pago, e ele era um órfão negro criado em uma instituição. Mas as freiras “dele” -- como as “minhas”, que tinham algumas posturas e sacadas de grande ousadia -- tiveram a sensibilidade de deixar o menino descobrir e curtir o talento para desenho. Olha só:

 

“Nascido aos 13 de maio de 1955, Reinaldo Alves dos Santos, artista plástico, traz o estigma e a reflexão da abolição em seus trabalhos. Órfão de pai e mãe, aos 7 anos já espraiava seu talento em trabalhos religiosos feitos em guache nas grandes vidraças da Casa da Infância do Menino Jesus, obras estas que antecediam as festividades da Páscoa e do Natal, entre outras”.

 

Essa entidade filantrópica assistida pela Liga das Senhoras Católicas o acolheu ainda quando engatinhava e nesta ocasião Reinaldo já realizava pequenos traços artísticos no chão umedecido pela chuva com apenas um pequeno galho seco de árvore. Agradecia a Deus por ali haver encontrado guarida, carinho e educação, fundamentais para desenvolver seu talento.

Lembra-se que na idade pré-escolar, muitas vezes fora “esquecido” entre tintas, pincéis e massinhas coloridas de modelar, e enquanto isso os outros internos almoçavam. Surpreendentes gestos das freiras numa maneira de preservar aqueles momentos criativos, e enquanto outros internos faziam a sesta, ele almoçava. Seu talento criara um a nova rotina no orfanato até seus 9 anos, idade máxima aceita neste estabelecimento”.

 

Que lindo, isso. O discernimento de perceber quando se pode desrespeitar uma norma, abrir uma exceção, preservar a criatividade, a liberdade, o talento. Em geral, as pessoas morrem de medo disso, e de perder o controle... Invocam uma igualdade besta: "Se deixar um, vou ter de deixar todos, então não deixo ninguém".

 

***

O livro é tão legal que eu comprei três: dois, vou dar de presente. Quem quiser (comprar) um, pode escrever para edicoestoro@yahoo.com.br (porque eu não sei onde vende).

 

 

Conde morreu no dia 1o. de janeiro de 2007, no mar da Ilha Comprida. Tinha 51 anos.



Escrito por Soninha às 09h29
[] [envie esta mensagem] []




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]