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"Prefeita de onde?"

Algumas das frases que a gente escuta por aí, panfletando em campanha:

 

Eu: Oi, sou candidata a prefeita, estou aqui divulgando a candidatura...

 

"Prefeita de onde, de São Paulo?" (isto é, nunca ouviu falar em mim e não me achou muito com cara de prefeita)

“Prefeita daqui, de São Miguel?” (bom, parece tanto outra cidade, é tão longe do centro,da Paulista e Jardins, que podia mesmo ter prefeito próprio...)

“Eu não voto aqui em São Miguel, sou do Itaim Paulista” (candidato a vereador ouve isso ainda mais)

“Eu não voto aqui em São Paulo” (porque mora em Itaquaquecetuba ou porque veio de outro estado e nunca transferiu o título)

“Eu não voto em ninguém” (desnecessário explicar).

 

***

Ontem fui à Bicicletada. Provando, entre outras coisas, que não precisa ser atleta para se locomover de bicicleta por aí. Veja o meu caso: 40 anos (a um mês dos 41), sedentária (meu grande exercício é subir escada, porque não tenho saco pra esperar elevador), pedalo uma vez por semana e uma distância curta (casa-trabalho). Mas ontem eu fui da Câmara até a Praça do Ciclista na Paulista (subindo a Augusta), depois bicicletamos pela Haddock Lobo, Estados Unidos, Cristiano Viana; subimos a Teodoro, pegamos Doutor Arnaldo e Paulista, descemos a Vergueiro, Liberdade e fomos (uns cento e poucos, a essa altura) circular em volta do Marco Zero, felizes da vida, e tirar foto nas escadarias da catedral da Sé. Seguimos até o Largo São Bento, São João, Ipiranga e São Luis. Eu voltei pra Câmara e o pessoal subiu a Consolação; uma turma ia pegar um ônibus para participar da Bicicletada em Curitiba!

 

Eu estava tão bem, tão sem cansaço,  que poderia ter pedalado mais uma hora numa boa (foram quase três). E acordei hoje sem um vestígio de dor.



Escrito por Soninha às 11h38
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Estrelas, botas, lixão, margarina...

Nem acredito que estou em casa a essa hora (20:40). Ouvindo o jogo do Palmeiras na TV – que está sem imagem há alguns dias. A empregada está de férias; minha mãe foi viajar; a filha mais velha, que me ajudaria a resolver esse e outros pepinos (às vezes ela dá dois tapas na televisão e a imagem volta), foi para a casa da avó para cuidar dos cachorros dela. Enquanto isso, a ração do meu acabou, as plantas estão morrendo de sede, já não há colheres limpas na gaveta e eu estou sempre atrasada para algum compromisso. O dia termina razoavelmente sossegado, mas a música-tema de hoje de manhã seria:

 

 

Nada assim tão dramático, mas o refrão dos Inocentes volta e meia me ocorre como trilha sonora... 

***

Hoje de manhã fui ao lançamento da Exposição Filhos do Brasil, no Ibirapuera.  São fotos selecionadas em um concurso promovido pelo IDECACE  (Instituto para o Desenvolvimento da Criança e do Adolescente pela Cultura e Esporte.), estão expostas em painéis muito grandes do lado de fora do Planetário, acompanhadas por frases de personalidades (como Paulo Freire e Betinho) e artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente (que faz 18 anos) e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (que faz 60).

 

Cheguei um pouco antes da cerimônia de abertura e aproveitei para sentar um pouco no sol, perto dos painéis, observando as fotos e fazendo anotações (mais um milhão de idéias surgidas enquanto eu estava na moto). Um momento de trabalho e ao mesmo tempo de sossego, no ambiente deliciosamente calmo do Parque àquela hora da manhã (9 e pouco). Olhando para a Declaração dos Direitos, pensei em como um direito singelo como aquele – parar, pensar, trabalhar em silêncio em lugar agradável – é absolutamente estranho a tanta gente.

 

***

Se eu pudesse mexer na Declaração, alteraria o artigo 17: 1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros”. Eu acrescentaria um “desde que”: “desde que essa propriedade não implique em danos a outros e prejuízos à coletividade”; “desde que a propriedade seja obtida legitimamente, sem agressão aos direitos dos demais”; “desde que o direito à propriedade não se sobreponha a outros direitos”...

 

***

A abertura oficial foi dentro do Planetário, em cerimônia comovente.

 

Estive no Planetário três vezes: uma, para ver o espetáculo da projeção do céu da cidade, quando tinha 14 anos; outra, para participar de um debate no Dia Sem Automóvel do ano passado; e esta de hoje.

 

Um amigo que me acompanhou desta vez disse que estava tendo muitas lembranças da infância. “Muitas?”. Sim, o avô o tinha levado várias vezes. “Ele gostava de astronomia?”. “Não, gostava de agradar os netos!”. Sorriu, com saudade da infância e do avô.

 

***

[Caramba, 4 a 2 no primeiro tempo! Que jogo é esse que não estou vendo!]

 

***

Minha mãe e meu tio gostavam de astronomia. Ele chegou a comprar uma bela luneta, à qual acoplava uma câmera fotográfica e fazia fotos incríveis, reveladas no laboratório caseiro.

 

Em tempos de noites mais escuras e céus menos poluídos, subíamos ao terraço da casa da minha avó e minha mãe ficava apontando, a olho nu ou pelas lentes de aumento: “Nossa, como a Ursa Maior está visível hoje! Olha Andrômeda, que linda!” Eu olhava e não via ursa nenhuma, por mais que ela dissesse “ali a cabeça, ali o corpo...”. Só enxergava Cruzeiro do Sul e Três Marias; a Lua, Marte, Saturno...

 

Caraca, hoje em dia quem mora em São Paulo não tem a MENOR chance de ver um céu estrelado como aquele! Muito menos os que vi em Peruíbe (céu limpo, noite ainda mais escura), Ilha do Mel...

 

***

A apresentação de hoje de manhã falava um pouco sobre isso: sobre o direito de ver um céu estrelado. E sobre a conexão que existe entre nós e as estrelas; a matéria de que somos feitos e as substâncias produzidas no seu interior. “Alguém pode se perguntar: o que eu tenho a ver com as estrelas? Tudo. Somos “filhos” delas, de certa maneira. E alguém pode pensar também que não tem nada a ver com as crianças na rua, maltratadas, em perigo. Mas temos tudo a ver com elas. Elas também são “filhas das estrelas”. Somos da mesma matéria. Somos todos filhos do Brasil”.

 

***

A foto que ficou em primeiro lugar chama-se “Chute na infância”. Mostra um menino engraxando botas. O fotógrafo, Pedro Brandimarte, há muito tempo se envolve com crianças e adolescentes que vivem pelas ruas do centro, especialmente na Praça da Sé. E lembrou o comentário incrédulo que ouviu de um deles anos atrás, antes de entrar para conhecer um lugar de acolhida: “É verdade que aí dentro tem cotonete?”

 

***

Lembrei da Esmeralda, autora de “Por que não dancei”, contando que imaginava que margarina era uma coisa do outro mundo, esplendidamente deliciosa, por causa dos comerciais que mostravam famílias felizes na TV. Vivendo na rua, dependente de crack, ficava deslumbrada com aquilo. No dia em que pôde comer margarina, foi uma decepção.

 

***

Lembrei também de um poema da Elisa Lucinda, em que ela se desespera de pensar: o que fazem as meninas que vivem na rua quando menstruam?

 

Absorvente é que elas não têm.

 

É de doer mesmo. E a gente nem pensa nisso.

 

***

O segundo lugar mostra os olhos de um menino do Vale do Jequitinhonha – uma espécie de monumento à vergonha (ou falta de vergonha) nacional. O terceiro, meninos no topo de um lixão.

 

No evento, um grupo de percussão (muito legal) cantou “eu/ sou brasileiro/ com muito orgulho/ com muito amor”... Sou, mas com muita aflição também. E fiquei com vontade de puxar um outro canto de arquibancada: “ahá/ uhu/ o lixão é nos-so”. Lixão é o fim da picada. O lixão é meu, é seu, é do prefeito, do governador, do presidente. Dos secretários, dos ministros. Das empresas. Como é que a gente pode tolerar lixão? Fingir que não existe, que tá tudo bem? E não empurra pra baixo do tapete, não: faz uma pilha enorme e deixa os pobres remexerem para pegar o que interessa, o que ainda tem valor.

 

***

A exposição fica no Ibirapuera até 24 de agosto.

 

***

Eu ia contar um pouco de cada um dos últimos 20 compromissos, mas hoje vou ficar por aqui.



Escrito por Soninha às 22h43
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Ai, que saudade eu estava do meu computador... Ou melhor, de UM computador, qualquer um. Passei a semana toda na rua para cima e para baixo. Este não é o meu – estou na redação da Bandeirantes, esperando para entrar no programa do Datena.

 

Pensei que ele não ia me convidar. Estou tão acostumada a não ser incluída em alguns programas... Em boa parte do tempo, é como se só houvesse três candidatos, no máximo quatro. Assim, pesquisas de intenção de voto acabam sendo o maior exemplo de profecia auto-realizável. Os que aparecem mais bem colocados – no mínimo, porque são mais conhecidos – são os que continuam aparecendo mais.

 

Tenho um texto começado sobre pesquisa; logo vou terminar e publicar. Muita gente já viu ET mas nunca respondeu a um pesquisador (em 22 anos de eleitora, ninguém nunca me perguntou “em quem você pretende votar?”; bom, também não vi ET...). Andando por aí, fazendo campanha, é difícil acreditar que uma em cada três pessoas (isto é, um pouco mais de 30%) esteja decidida a votar na Marta; outra (de cada trio) no Alckmin... A impressão que a gente tem é que a maioria não está decidida a nada. (Aliás, na pesquisa não estimulada, 34% das pessoas disseram que não sabem em quem votar ou não quiseram responder).

 

**
Nos últimos dias, fiz três caminhadas de panfletagem. Uma na Praça Benedito Calixto (Pinheiros), outra em São Miguel e outra na Lapa. Em todos os lugares você encontra alguém que faz cara de nojo, não quer nem olhar na sua cara, quanto mais pegar um folheto. Mas a incidência de hostilidade e rejeição absoluta foi muito maior em Pinheiros do que nas ruas de comércio popular nos outros bairros. Na Benedito, uma mulher em uma das barracas de antigüidade não só não quis pegar o folheto (ok, ela pode não querer) mas disse que eu devia atravessar a rua e não pisar na calçada "dela". Não era nada pessoal, não. A bronca é com todos os políticos. Mas sobrou pra mim com uma violência, uma grosseria...

 

O pessoal de São Miguel provavelmente teria mais motivos para revolta, mas eles aceitam parar um segundo sua caminhada apressada, facilmente relaxam a expressão tensa e pegam um folheto. Acho que é até porque eles sabem como é tentar abordar alguém e ser mal tratado; como é viver de distribuir folheto, fazer propaganda corpo-a-corpo, tentar vender produto...

 

Vou entrar no ar. Depois eu termino



Escrito por Soninha às 18h47
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Em nome da isonomia

Tô meio sem tempo para escrever agora , mas não quero deixar de registrar o que me ocorreu enquanto eu vinha para cá (aliás, a quantidade de idéias que ocorrem quando eu estou no trânsito é incrível, quase insuportável – não dá para anotar nada quando se está de moto). Não é nada de mais; vou blogar para tirar da cabeça.

Com essa determinação de proibir quase tudo na internet a pretexto de garantir a isonomia entre os candidatos, é como se o tribunal eleitoral dissesse: “A partir de hoje, está proibido andar a pé. Quem quiser, que se desloque de carro.  E veículo próprio – nada de pegar ônibus, carona...”

Na prática, é bem por aí. Aquilo que é barato ou grátis e acessível para qualquer um está vedado. Mas quem tiver grana para bancar uma página própria que suporte uma carga “pesada”  (para, por exemplo, hospedar vídeos, em vez de deixá-los disponíveis no You Tube) pode fazer o que quiser.

Muito justo.



Escrito por Soninha às 11h59
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Enquanto isso, na Globo...

Não vou falar mal não – foram três coisas legais.

 

No domingo retrasado, o Esporte Espetacular mostrou uma entrevista com o Parreira em que ele foi muito franco e destemido. Fez críticas a jogadores, reclamou das autoridades do futebol, abandonou a velha diplomacia insossa e inútil para falar abertamente de nossos problemas. Algumas coisas já tinham sido admitidas antes – como o fato, antes  negado com tanta veemência, de haver jogadores escandalosamente acima do peso na Copa do Mundo. (E pensar que falar nisso durante a Copa parecia crime de lesa-pátria...)

 

Neste último domingo, eles fizeram quase um curta-metragem com o Sócrates. A história dele desde os tempos de estudante de medicina e jogador do Botafogo de Ribeirão (cheio de “privilégios” no time, como ele admite dando risada – “eu treinava quando queria, jogava quando podia...”); os desafios da democracia corintiana (em uma época em que dizer a palavra democracia era subversão); a Copa de 82; a campanha por eleições diretas... Tudo entremeado por imagens inacreditáveis de jogadas do Doutor e depoimentos contundentes (o que, no caso dele, não chega a ser surpresa). Será que tem no You Tube? Eu recomendo enfaticamente.

 

E ontem (terça) de manhã, na Ana Maria Braga (que eu nunca vejo, mas calhou de a TV ficar ligada na Globo depois do Bom Dia Brasil), passou uma reportagem maravilhosa sobre população “de rua”. Uma repórter excelente, que eu acho que veio daquela turma do Caco Barcelos (aliás, adoro Profissão Repórter), saiu em busca de pessoas que ela já tinha conhecido e entrevistado no ano passado, e reencontrou algumas delas. Com muita sensibilidade, muita habilidade, sem nenhum ar de superioridade ou receio, ela entra nos mocós e conversa com as pessoas de modo absolutamente respeitoso, genuinamente curioso e interessado. E elas revelam seus nomes, suas histórias, seus sonhos. Como o homem que cozinha (bem, ao que parece) em um fogareiro no viaduto do albergue Pedroso; que está satisfeito porque está trabalhando (acho que é ambulante), se diz feliz (“cada dia, mais”) e repete em 2008 o que tinha dito em 2007: que gostaria de ter uma casa não só para ele, mas para “todo o pessoal” morar. Um encanto. Outra mora em sua carroça com os cachorros. Outro é poeta. Sem falar no câmera da equipe, que virou repórter por alguns instantes e recordou o tempo em que ele também viveu na rua. Incrível.

 

***
Para concluir, um bom momento de outra emissora, a Record: Roberto Cabrini foi a um campo de refugiados no Congo. Descreveu as guerras civis e massacres da região, conheceu as pessoas, deixou-se levar pelas crianças até o lugar esfarrapado que elas chamam de “minha casa”.

 

E não é que a TV aberta tem seus bons momentos? Como diria minha tia-avó, “benza Deus”.

 

***

Por falar em “benza Deus”: Quitéria está internada, aleluia. Em um quarto com duas ou três outras senhorinhas, aguardando cirurgias também. A dela deve acontecer na próxima segunda-feira. Ontem à noite, me ligou feliz: “Estão cuidando da minha dor”. Agora só sente falta de uma televisãozinha para se distrair.



Escrito por Soninha às 00h43
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A caminho da campanha secreta

Cada vez mais, o tribunal eleitoral entende que é feio fazer campanha, apresentar os candidatos, pedir voto...

Arrecadar recursos, então, é horroroso! Cruz-credo!

Queremos fazer uma campanha para a qual as pessoas possam contribuir voluntariamente, com qualquer valor – 5, dez, quinze ou vinte reais... Beleza. Mas receber doações é complicadíssimo. Tem de ter recibo preenchido por extenso com nome, RG, CPF, assinatura... “SPC do CIC”, como dizia o Renato Aragão.

Já que não pode distribuir brindes – entendo; é um jeito clássico de comprar voto (“te dou um boné pra você votar em mim”) – pensamos em vender camisetas, por exemplo. Teria uma dupla utilidade: arrecadar dinheiro e divulgar a candidatura.

Fomos lá consultar a regra. Que é clara... (Pra ver como clareza não é tudo!)

RESOLUÇÃO Nº 22.718, de 28/2/2008, que trata da Propaganda Eleitoral

 Art. 12. É assegurado aos partidos políticos o direito de...

III – comercializar material de divulgação institucional, desde que não contenha nome e número de candidato, bem como cargo em disputa.

Incrível! Talvez a gente possa fazer algo do tipo “Fumar faz mal à saúde e causa dependência”; “Assista “O Homem que Virou Suco”, de João Batista de Andrade”; “Não perca o horário eleitoral gratuito” – sem bem que essa já é mais arriscada....

E se for assim, será que pode?



Escrito por Soninha às 15h07
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Quitéria em tempo (quase) real

Hoje às seis e pouco da manhã Quitéria pegou um táxi (com que dinheiro?) e foi para o hospital Brigadeiro.

 

Chegando lá, foi avisada: “Não sei se vai dar para antecipar sua consulta hoje... Vamos ver. Talvez tenha que tentar encaixar em algum outro dia”. O marido dela, a essa altura dolorido também, no fundo da alma, me ligou para avisar: “Vou ficar no corredor esperando o médico passar!”

 

Dali a pouco, me liga a Quitéria, com voz trêmula: “O médico disse que vai marcar já a minha cirurgia. Eu tô com medo!”. “Quitéria do céu, é o que a gente mais queria... Fica tranqüila, o que não dá é pra ficar com essa dor”. “Ele disse que tem caroço no rim, na vesícula...”. “Então, tem de operar. Chega de dor. E vê aí se você pode ficar internada até a operação. Diz pra ele que você vai TODO DIA no pronto-socorro morrendo de dor”.

 

Mais meia hora se passa. “Soninha, ele marcou a cirurgia para dia 30”. “Trinta agora??”. “Não, de AGOSTO! E disse que eu tenho caroço também no seio. Falou que eu não posso ficar no hospital porque tem muito risco de infecção. E falou que a dor, o jeito é ir no médico, tomar remédio, tomar remédio na veia...”.

 

Isso, isso mesmo. Eles mandaram ela de volta para casa, porque no hospital “tem risco de infecção”. No casebre em que ela mora, com um banheiro para sete pessoas, não deve ter não. Com um tanque pra lavar a roupa de todo mundo. E a dor? Ora, é só continuar pegando táxi todo dia até o pronto-socorro, ficando na fila, tomando um remédio aqui e outro ali...

 

Minha vontade é baixar no hospital com a SWAT, a OAB, a Anistia Internacional, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, a Secretaria Especial dos Direitos das Mulheres, a Cúria Metropolitana, o MST, o Cansei, as Farc, a Cruz Vermelha, o Crescente Vermelho, tudo. Me amarrar no poste, chamar a TV, subir no telhado com uma bandeira pedindo socorro, fazer uma corrente humana de joelhos em volta do hospital, implorar: cuidem dessa mulher como se ela fosse alguém da sua família. Como se ela fosse gente. Tentem imaginar, se for difícil acreditar que ela seja mesmo.

 

***

Enquanto escrevia, recebi uma ligação. O médico que pediu “marquem agora a cirurgia” não sabia que tinha sido marcada para 30/08. Disse que não pode ser assim e vai tentar interferir para antecipar (ele não manda na agenda do centro cirúrgico). Suspendam a SWAT por enquanto.



Escrito por Soninha às 09h28
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As últimas sobre a Quitéria

[A história começa dois posts abaixo]

 

No sábado de manhã, soube detalhes da consulta dela no pronto-atendimento do Pérola.

Chegou lá varada de dor, como é comum. Pagou R$70,00 de táxi da Brasilândia até lá (com que dinheiro?). A pessoa que atendeu olhou o laudo do ultra-som e disse: “Ah, por esse exame não dá para saber o que você tem, sua condição intestinal [não vou entrar em detahes, mas acho que já deu para entender] não permite enxergar a vesícula, não dá para ter certeza quanto ao apêndice...”. Tomou o procedimento adequado para melhorar a condição intestinal, deu um remédio para dor e... Mandou embora para casa, claro. O que só era possível de táxi, lógico (com que dinheiro?).

 

Não, ela não ficou em repouso, nem ao menos até a hora em que os ônibus voltar a circular. Não ficou em observação. Não fez outro ultra-som imediatamente, ou no dia seguinte, para tentar enxergar direito o que ela tem. “Volta na segunda-feira e procura o seu médico”. Assim, “volta na segunda”, como se ela tivesse passado na banca de jornal para saber se já chegou a revista da semana.

 

O remédio que precisava comprar na farmácia custava R$38,00.

 

No próprio sábado, passou o dia com dor (ah, vá). Que ficou insuportável no começo da noite. In-su-por-tá-vel. Foi ao hospital Penteado, que é o mais próximo. Foi informada, como da última vez, que não havia clínico geral no Plantão. Não quis voltar ao PS da João Paulo (onde tinha recebido o encaminhamento para um ultra-som na semana passada); foi (de táxi) ao hospital de Pirituba. Deram um anestésico na veia e mandaram de volta para casa. Felizmente, “desmaiou”, como ela disse – dormiu até agora há pouco.

 

Acordou com dor. De tanto tomar remédio, passa mal, enjoa, vomita. O marido fez a feira (com que dinheiro?) e comprou frutas e verduras para que o intestino funcione melhor, mas ela mal consegue comer.

 

Mesmo assim, me ligou (a cobrar, como sempre)  bem humorada (!!!). Disse que é melhor eu fazer logo um seguro de vida em nome dela – ouviu dizer que “paga 9 reais por mês, e no fim quando eu morrer você recebe 31 mil. Assim eu não te dou só prejuízo!”, disse, dando risada. “Não quero 31 mil, quero minha filha viva!” (Ela tem a minha idade, mas brinca que eu sou a mãe que ela não tem mais - morreu há uns dois anos). Queixou-se da dor: “Toma o remédio direito, faz massagem, faz compressa, que nem a gente faz em nenê com cólica”.

 

Dali a pouco, ligou de novo: “Soninha, você não acredita. Eu saí da cama pra ficar um pouco no sol. Sentei no quintal, escorreguei lá de cima e vim parar aqui em baixo!”. E ria, ria da própria desgraça. Quando não tem dor, ela tem prazer com muito pouco – quando não está agoniada com o sofrimento dos outros. “Quitéria, você tem de maneirar, senão, quando eu fizer o filme da sua vida, ninguém vai acreditar! Vão dizer que é mentira! E não vai me arrumar problema quebrando a perna!”. Ela ria, e ria... “Tô toda suja de barro!” (a casa dela fica em uma pirambeira de dar medo. Certa vez, foi resgatada pelos bombeiros, que fizeram rapel para descer a maca. Não dava para carregar até a rua). “Bom, pelo menos agora que a bunda tá doendo, você esquece a dor de barriga!”. Ela riu mais um pouco, pediu ajuda para retirar os galhos de árvore que largaram na frente da casa dela (se bobear, a própria Subprefeitura, que acho que foi quem cortou um pinheiro que estava despencando e ameaçando arrastar a casa junto) e disse que amanhã às sete já quer estar no Brigadeiro para tentar falar com seu médico.

 

Não consigo encerrar este texto de outra maneira. Minha impotência em relação a ela – que foi um dos motivos fortíssimos a me empurrar para a candidatura a vereadora, porque eu estava crente que na Câmara conseguiria fazer muito por gente assim, e na verdade a impotência foi só um pouco menor – me leva a uma frase comodamente esperançosa, dita como interjeição automática: “Seja o que Deus quiser”.



Escrito por Soninha às 14h00
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"Você não foi...? Então vá, então vá" (Lenine)

Antes de qualquer outra coisa: não tem nada para fazer hoje? Ou no fim-de-semana que vem? Tem ao menos meio período livre? VÁ ao Festival de Inverno de Paranapiacaba. Tem gente que fica incomodada com esses imperativos dos cadernos de cultura: “Vá”, “veja”, “leia”, “fuja”. Azar. É imperativo mesmo!

 

Estive lá ontem. Não fazia muito tempo que tinha estado na vila, que desde 2002 pertence a Santo André. Na última visita, fiquei bem impressionada com a recuperação do lugar – a antepenúltima ida, muitos anos atrás, tinha sido deprimente, com tudo maltratado, caindo aos pedaços. Desta vez, fiquei com a impressão que houve novos progressos nos últimos meses (mesmo descontando o “trato” que deve ter havido especialmente para o festival). (Não posso deixar de dizer – ponto para a administração municipal, que é do PT. Quando ainda estava no partido, revoltada ou envergonhada com algumas de suas posturas, respirava aliviada ao ver ações que ainda eram motivo de orgulho).

 

As casas, museus e estabelecimentos comerciais estão bem conservados e sinalizados; as ruas, bem cuidadas. Estava uma tarde linda, fria e ensolarada; à noite, uma lua estupidamente bela. A neblina de Paranapiacaba é famosa, mas não deu o ar da graça neste fim-de-semana.

 

*** 

A programação do festival é uma delícia. Fui com amigos (9) + uma filha (a caçula) para o show do Lenine, às cinco da tarde. Quase não consigo entrar – desde o meio-dia havia gente na fila para pegar ingressos (grátis). Muita gente ficou de fora; no fim, acho que todos conseguiram entrar (tomara! – apesar dos ingressos teoricamente esgotados, havia espaço de sobra para entrarem os que estavam na porta).

 

(Pensei que tínhamos perdido o show da Marina de La Riva por estarmos atrasados; depois soubemos que ele foi cancelado, não cheguei a saber por quê).

 

***

Chegar a Paranapiacaba é muito fácil: Anchieta até a Billings, aí é só seguir as placas. Só tem um probleminha: a primeira vez em que aparece o nome “Paranapiacaba” aparece em uma placa é quando você já saiu da Anchieta e está prestes a passar por baixo da estrada. Antes disso, nada. Nenhuma referência. Aparecem São Bernardo, Rudge Ramos, Diadema, Taboão, Santo André, Riacho Grande, Santos, tudo – menos Paranapiacaba, que é uma super atração turística (ê, Brasil...). Então às vezes você fica na dúvida – “fico na pista externa ou interna da Anchieta?”. Eu mudei duas vezes à toa... No fim, tanto faz. São 21 km de Anchieta (vi agora no Google Maps).

 

(Olhando no jornal do Festival, achei outra explicação de como chegar: “Anchieta até km 29 (placa para Ribeirão Pires), entrar na SP 148 (Estrada Velha de Santos) até o km 33 e pegar a Rodovia Índio Tibiriçá (SP 31) até o km 45,5. Daí pegar a SP 122 até Paranapiacaba”. Mas, como eu disse, depois de sair da Anchieta tem placa. O problema é a volta: chega uma hora em que não há nenhum sinal indicando “São Paulo”. Você tem de escolher, sei lá, entre “São Bernardo” e “Ribeirão Pires”. Da outra vez, escolhi errado e fui por dentro das cidades, em vez de pegar a Anchieta – e só por causa desse vacilo anterior fiz o caminho certo desta vez).

 

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Também dá para ir de trem da Luz até Rio Grande da Serra e pegar um ônibus até a Vila de Paranapiacaba – de meia em meia hora nos fins-de-semana.

 

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Chegando de carro, há um bolsão de estacionamento (R$10,00) e um ônibus para translado até a vila. Tudo muito bem orientado, organizado e ágil. Aliás, uma das bênçãos do lugar é o fato de carros não circularem livremente por ali. São ladeiras muito íngremes de paralelepípedo, casas muito antigas, ruas estreitas. Carros destruiriam a paisagem.

 

O trem que é a razão de ser da vila (ela foi criada para abrigar funcionários da São Paulo Railway) foi abandonado anos atrás. Fiquei sabendo lá, pela Subprefeita, que será reativada uma linha turística ainda este ano, operada pela CPTM. Aleluia.

 

***

Além dos shows “grandes” no Espaço Viradouro, como o do Lenine (hoje tem Zeca Baleiro às 18:00), há uma série de outros palcos e espaços com apresentações musicais, teatro, cinema, dança, etc. À noite, antes de virmos embora (queria ter ficado para o show “Agô – Cantos Sagrados Brasil e Cuba”, com Sapopemba (brasileiros), Liena Centeno (cubana) e os Heartbreakers, mas não agüentei o cansaço) comemos sopa no pão italiano (a minha, de batata, estava divina) ouvindo a apresentação da Mariane Mattoso e grupo Zambelô no Palco do Mercado (divina também).

 

***

Resumindo: vai lá, vai? De carro ou de trem, de bicicleta se for atleta, de dia ou à noite... Leve dinheiro trocado (não tem caixa eletrônico e nem todo lugar aceita cheque ou cartão), leve a fome e os amigos, traga fotos, folhetos e peças de artesanato. Com tempo, percorra as trilhas e visite os museus. Duvido que você não goste do passeio por esse lugar que já é tombado como patrimônio histórico, cultural e ambiental do município, do estado e do país (os Conselhos de Patrimônio das três esferas assim o reconhecem) e agora aspira ao reconhecimento, pela Unesco, de que é patrimônio da humanidade.

 

O Festival termina no fim-de-semana que vem. No sábado tem Otto; no domingo, Scott Henderson Trio. Precisa retirar ingressos com no máximo duas horas de antecedência. Mas acredite em mim: se não der para entrar e ver esses shows, você não vai perder a viagem (porque há muitas outras coisas para ver e fazer – nem que seja só subir e descer ladeira, sentar ao sol, ficar olhando o movimento). Não esqueça a máquina fotográfica com bateria e memória suficiente e um agasalho – mesmo com sol, faz um friozinho bom.

 

***

Se eu não fiz campanha? Não muita. Distribuí uns poucos folhetos (acabaram logo), e quando alguém dizia: “Soninha? Votei em você!”, eu respondia: “Ôba, obrigada, não quer votar de novo?” :o)



Escrito por Soninha às 13h30
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