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A suspensão da suspensão do rodízio
Hoje, às 7:10, falei com Heródoto Barbeiro na CBN. Tive um flashback de como me atormentava trabalhar em rádio. Não sei por que, fico mais obcecada pelos meus tropeços, vacilos e titubeios do que na televisão. Depois de 13 anos na TV, aprendi a não ficar remoendo infinitamente o programa que passou – se me expressei mal, não adianta rever mentalmente o erro mil vezes, o jeito é melhorar na próxima. Quando falo no rádio, relembro cada frase, detesto metade delas e fico me torturando por horas depois.
Hoje foi pior, porque dormi só quatro horas antes de me ligarem. O raciocínio demorou a pegar, como os antigos carros a álcool no inverno. Espero não ter soado confusa demais – espero mais duvido.
O assunto era a suspensão da suspensão do rodízio. O que eu tentei dizer foi o seguinte: a tentativa de suspensão não era nada muito extravagante; nas férias escolares de janeiro, ela costuma acontecer. Mas o número de veículos em circulação continua crescendo, e mesmo em dias normais o rodízio já não produz o efeito esperado (isto é, mais fluidez no horário de pico). Além disso, parece ter havido um desacerto da Companhia de Tráfego, porque mesmo sem rodízio é difícil aceitar congestionamentos recordes (como aconteceu outro dia). É evidente que São Paulo tem menos veículos do que o normal, mesmo sem a restrição diária a 20% deles. Então como é que a gente teve congestionamento MAIOR do que em um dia normal sem rodízio (como na greve do metrô de semanas atrás?). Provavelmente, a Companhia trabalha com um efetivo menor de operadores durante esse período, o que é compreensível – mas talvez não devesse ser tão menor diante da suspensão do rodízio. Xi, acho que continuo me explicando meio mal.
O fato é que São Paulo hoje não vive sem rodízio, mesmo com centenas de milhares de veículos a menos nas ruas. O rodízio é um remédio imediato para um problema agudo – os congestionamentos no horário de pico – e, desejavelmente, um indutor de mudanças culturais a médio prazo (essa parte não tem funcionado muito bem). O ideal é que as pessoas se disponham a deixar o automóvel em casa ao menos um dia durante a semana, se organizando para usar o transporte público ou se revezar em um sistema de carona. E também deixem de usar o automóvel em situações em que é mais saudável ir a pé ou de bicicleta – para cumprir pequenos trajetos até o banco, a videolocadora e a farmácia, por exemplo. Sem falar na combinação de vários meios de locomoção, que está sendo aos poucos tornada mais fácil: bicicleta + metrô + pequena caminhada, por exemplo.
Por que isso tudo? Porque NÃO CABE mais carro. Não tem espaço para todos. Sem falar no custo energético, ambiental e de saúde. Como disse o Secretário do Verde e do Meio Ambiente horas depois na própria CBN, o problema não é o carro – é ser dependente dele. Precisamos investir em outras formas de mobilidade urbana. Carro é cada vez menos móvel e, se continuar sendo prioridade, a tendência é piorar.
Escrito por Soninha às 11h01
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