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Ingressos caros, cotas e futebol-Polyana
Hoje no CBN Esporte Clube o Juca Kfouri debateu a proposta, volta e meia ventilada, de cotas na seleção brasileira de futebol – isto é, da convocação obrigatória de jogadores que atuam no Brasil. E comentou, de passagem: “Sobre as cotas para negros nas universidades, eu tenho um milhão de dúvidas”.
Curiosamente, no mesmo programa, dez minutos antes, uma conversa tinha me feito pensar nesse assunto. Foi assim:
Juca: “Renato Mauricio Prado, o futebol está se elitizando. Daqui, de onde eu estou [no Maracanã], dá para contar nos dedos a quantidade de negros na arquibancada."
Renato: “O próprio preço do ingresso provoca esse efeito. Ele faz com que o público presente ao estádio seja o de maior poder aquisitivo. Se bem que a torcida do Flu sempre foi mais Zona Sul... Claro que tem negros na torcida, mas o perfil é mais branco. E mesmo nos jogos do Flamengo, que tem uma torcida mais povão, você vê cada vez menos negros”.
Ou seja: como muitos já observaram, a pobreza tem cor no Brasil. Há muito mais pretos pobres do que da classe média pra cima... A Zona Sul é “branca”; a população “de maior poder aquisitivo” também. É fato. Por causa apenas do preconceito? Não, para começar por causa da história – os antepassados dos negros vieram para o Brasil acorrentados, trabalharam de graça até morrer ou quase isso, foram libertados sem direito a nada – bens móveis ou imóveis, pensão, indenização... Não é fácil a descendência construir uma vida próspera e segura – ainda mais porque tem, sim, o preconceito...
Entre um branco pobre e um preto pobre, não tenha dúvida: o último estará sempre em desvantagem. Por isso sou a favor das cotas como medida de emergência: uma compensação forçada imediata, até que não haja tamanho desequilíbrio. Precisamos de muito mais negros médicos, psicólogos, engenheiros, professores, advogados, jornalistas, juízes, arquitetos, empresários, economistas... JÁ! Para que ajudem a pensar melhor na situação dos negros no Brasil. Para que ajam de outra maneira em relação a eles, a partir de uma experiência que (nós, brancos) podemos apenas imaginar. Para que sirvam de modelo para os meninos e meninas negras – que podem querer ser artistas ou atletas, que são ocupações dignas e valiosas, mas não podem achar que isso é só o que podem ser.
Há distorções possíveis no regime de cotas “raciais”? Claro que sim. Negros de maior poder aquisitivo podem se beneficiar das vagas preferenciais e prejudicar brancos pobres. Negros pobres podem ter dificuldade de acompanhar o curso universitário, seja porque sua formação básica foi de má qualidade, seja porque não têm dinheiro para o material didático (problemas, aliás, também de brancos pobres). Mas em um sistema bem bolado – por exemplo, que dê vantagens para negros e alunos de escolas públicas em caso de empate – as distorções seriam residuais e os benefícios, predominantes.
“Eu tenho muitas dúvidas sobre as cotas”, disse o Juca, “porque não sei se não acabam por criar uma divisão no país”. Eu já fui contra as cotas, com a maior convicção. Depois comecei a ter dúvidas... Depois mudei completamente de idéia. O país já é dividido, mesmo sem ter um apartheid oficial. Nas arquibancadas ou gramados de futebol, até existe alguma mistura, apesar dos ingressos muito caros das partidas decisivas. Nas universidade, especialmente nas públicas, quase não há. Os negros são os faxineiros, porteiros e seguranças... Precisa haver mais estudantes e professores. Se o jeito de fazer isso a curto prazo é criar um acesso diferenciado, que seja. Um dia, com a colaboração decisiva dos novos contingentes de negros com ensino superior completo, não precisaremos mais disso e haverá tantos negros e pardos nas aulas da USP quanto há hoje nas ruas do Capão Redondo ou Brasilândia.
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E por falar em futebol...
O Fluminense pode ser campeão hoje à noite? Claro que pode. O Liverpool não ficou com a Copa dos Campeões depois de tomar 3 X 0 do Milan no primeiro tempo da final? Etc., etc...
O problema é a diferença que existe entre “acreditar que pode” e “ter certeza que vai”. Em alguns momentos, parecia até que era o Flu que estava entrando em campo com baita vantagem a seu favor. Como se fosse só pisar no Maracanã que tudo seria diferente, o resultado estava garantido.
Comecei a escrever e o Fluminense fez um belo gol, para alegria do meu vizinho querido. O Renato Gaúcho vai faturar em definitivo o troféu “Máscara” se ganhar outra Libertadores (agora como técnico), e isso broxa um pouco minha vontade de torcer para o Flu. Mas quando o Thiago Neves acertou o chute, sem querer eu comemorei.
Na verdade, é bom ter seu time na final (claro que é!) – mas também é gostoso assistir uma decisão sem “responsabilidade”, sem precisar secar o maior rival... Que seja um bom jogo e acabou. Que o Fluminense, se cair, caia de pé – aí fica todo mundo feliz. Os tricolores, orgulhosos da luta, porque chegou lá. Os demais, aliviados porque ele não ganhou. (E esse foi, provavelmente, o pensamento mais polyanamente futebolístico que eu já tive na minha vida).
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PQP, três gols em final de Libertadores! E acho que todo mundo teve a mesma sensação quando o Thiago Neves foi para a cobrança de falta, aos 12 do segundo tempo: que ele ia fazer o gol. Incrível. Com uma partida dessa, ele merece o título, o cetro, a coroa, tudo. E um busto nas Laranjeiras.
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*** Seria de muito mau gosto (ou mau agouro) ter escrito isso antes, mas eu tinha certeza que, se a partida fosse para os pênaltis, o Thiago Neves perderia o dele. Bom, eu e a torcida do Flamengo... É a sina mais óbvia e mais absurda – o craque do jogo sempre falha nessa hora. Mas não bastou o Thiago, teve também o Conca e o Washington! Que tragédia. Menos mal, pelo lado pessoal, que foram três os “culpados”... Dividem a dor uns com os outros. E foram três caras super importantes para o Flu chegar até ali.
Como desgraça pouca é bobagem, o tricolor é o lanterna do Brasileiro. Afe. Do tudo (campeão da América, com vaga no Mundial de Clubes) ao nada em 4 chutes – amanhã vai ter um monte de torcedor pensando “por que é que a gente sofre tanto por causa dessa merda de futebol?”.
Escrito por Soninha às 22h25
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CREDO!
Da série: “Podia ter passado sem essa”
Deu no Terra e no Notícias da Amazônia: “Em audiência pública na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara realizada, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse que não é possível “tratar a Amazônia como querem os ambientalistas que têm agenda no exterior. “Temos que pensar nos 21 milhões de brasileiros que vivem lá para não empurrá-los para a ilegalidade”.
O ministro defendeu medidas de desenvolvimento sustentável para a região em vez de tratar a floresta como um santuário, como defendem ambientalistas estrangeiros. “A Amazônia não pode ser uma coleção de árvores para lazer de estrangeiros”, disse.
A Folha Online reproduziu assim a fala do ministro: "São pessoas que estão com uma agenda fora do Brasil, que destruíram suas florestas e querem cuidar das dos outros. A Amazônia tem que ser algo nosso."
Santo Deus...
Por partes:
1) Quem disse que “os ambientalistas estrangeiros” querem uma “coleção de árvores para lazer”? Que não defendem o desenvolvimento sustentável da floresta? Claro que tem ambientalista estrangeiro fanático ou picareta, como em qualquer outro lugar. Mas esse discurso de tratar os “ambientalistas” (e, nesse caso, especialmente os “estrangeiros”) como “inimigos do desenvolvimento” é de lascar.
2) “Eles destruíram as deles” – Eles quem, os ambientalistas da Alemanha e da Holanda, ou os antepassados deles? Esse argumento é uma belezinha – se um democrata estadunidense criticar as eleições fraudulentas no Zimbábue, os partidários do presidente eleito podem dizer: “Quem são eles para criticar nossas eleições? O Bush se elegeu com aquela contagem de votos mandrake!”. Ou mesmo que o crítico seja um republicano, não necessariamente orgulhoso de seus sistema confuso – então ele é obrigado a se calar em relação à matança na antiga Rodésia? Também não podemos criticar a (falta de) política ambiental na China, ou o desrespeito gritante a direitos humanos fundamentais e direitos trabalhistas, porque um chinês pode dizer: “E lá no Brasil eles não têm trabalho escravo? Não têm rios poluídos?”.
3) Além de estabelecer que todos os cidadãos de um país têm de responder pelas burradas feitas em solo pátrio ou corrigir todos os erros nacionais antes de fazerem críticas internacionais, o argumento acima presume o seguinte: a floresta é “nossa” e a gente faz com ela o que bem entender, ninguém tem nada a ver com isso. E se ela é muito valiosa mas a gente prefere fazer pasto e plantar soja, não se metam. É muito bonita mas nós achamos mais importante derrubar as árvores para fazer carvão e alimentar a indústria siderúrgica que abastece a indústria automobilística, não nos encham o saco. Vocês derrubaram suas florestas e agora nós vamos derrubar as nossas!
Quando o ministro fala em “não empurrar 21 milhões de brasileiros para a ilegalidade”, ele não pode esquecer o seguinte: por obra de sua própria ganância e/ou ignorância, já há um número (pequeno, até) de brasileiros na ilegalidade, causando danos gigantescos aos outros milhões -- aliás, ao país todo, ao continente, até aos alemães e holandeses. São os grileiros, os desmatadores, os exploradores de mão-de-obra análoga à escravidão, os pecuaristas em área que deveria ser de preservação permanente, os sojicultores idem, os biopiratas... Que se apossaram de um pedaço de terra, disseram “é tudo meu” e agora gritam: “Socorro! Nossa soberania está ameaçada! Tirem esses estrangeiros daqui!”.
Puxa, ministro, o senhor foi tão bem ao dizer que “a questão das terras indígenas não é o maior problema da Amazônia. Segundo ele, o atual regime jurídico dessas terras é “absolutamente compatível” com a defesa da soberania nacional e acrescentou que não há nenhuma limitação legal para que atividades policiais e militares em defesa de território brasileiro sejam feitas em terras indígenas”. Quer dizer, não venham com esse papo de que a demarcação das terras nos deixa vulneráveis ao perigoso invasor estrangeiro, blá-blá-blá. Mas depois de des-demonizar as reservas, ele vem e re-demoniza os “ambientalistas estrangeiros”...
Podia, não podia, ter passado sem essa?
Escrito por Soninha às 20h19
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Sempre difícil lidar com o fim
Duas pessoas ligaram ontem à noite para me perguntar: “Já soube da Ruth?”
Fiquei muito triste. Gostava dela. “Discreta” é a palavra óbvia, que ocorre a todo mundo, ou “sóbria”. Mas não era só isso: inteligente, combativa, generosa e corajosa, várias vezes abriu mão de uma posição confortável (era só deixar de se manifestar que não teria nenhum problema...) para assumir opiniões controvertidas, que julgava importante defender.
(Eu nem me lembrava do episódio, mas a Folha conta a história de quando Ruth – ela não gostava de ser chamada de “Dona Ruth” – falou sobre a necessidade de regulamentação da interrupção da gravidez em hospitais públicos para os casos em que a lei admite que seja feita. Foi acusada de “demagogia” e de “agredir o Papa”, que viria ao Brasil pouco tempo depois).
Estive em pelo menos uma mesa de debate ao lado dela, muitos anos atrás. Mas ainda outro dia uma amiga participou de um evento na Bahia em que ela também estava e me mandou uma mensagem por celular: “Gostei muito da Ruth!”. Mesmo quem tinha pouca simpatia (ou muita antipatia) pelo presidente Fernando Henrique respeitava ou até admirava muito a primeira dama. Ruth defendia causas ligadas aos temas da desigualdade, mulher, juventude, movimentos sociais, educação, tecnologias da informação, participação popular... Avaliava-se que, diferentemente do marido, ela se mantinha mais firme e ousada na defesa do que acreditou a vida inteira.
Mas vê lá se isso é hora de ficar criticando Fernando Henrique, que está devastado. Se eu que só tive um ou dois contatos com ela fiquei perplexa, e passei por aquela fase de dizer para mim mesma “morreu a Ruth Cardoso” várias vezes e achar estranho em todas elas, como se fosse sempre uma informação nova, imagine quem viveu junto mais de 50 anos. Se eu sinto como se tivesse perdido uma pessoa próxima – e outros amigos também disseram estar com a mesma sensação – imagine quem era próximo de verdade.
Morreu a D. Ruth.... (Mesmo ela não gostando, é difícil se referir a ela sem chamá-la de Dona, com respeito e não com deboche). Foi-se “como uma bolha de sabão”, disse uma pessoa próxima. Viveu uma vida digna de orgulho e se despediu dela sem muita dor e sofrimento, apesar de nos deixar assim atônitos com a ida súbita... Problema nosso, que nunca sabemos direito como lidar com o fim de todas as coisas.
Escrito por Soninha às 10h41
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Preocupante
Na Conferência Municipal de Atenção às Drogas, uma representante da Guarda Civil Metropolitana fez a seguinte queixa: “Depois que a Marta abriu as escolas para a comunidade, o tráfico entrou”. Foi aplaudida pelos presentes.
A conclusão, naturalmente, é que as escolas devem ser fechadas, para impedir a entrada dos bandidos.
Então tá: tranquem os portões, subam os muros, deixemos todo mundo do lado de fora – os bandidos e os alunos. Nada de jogar bola no fim-de-semana na quadra da escola. Se os meninos tiverem de conviver com o tráfico, que seja na rua. E se na vizinhança não tiver outro lugar pra jogar bola, eles que inventem outra coisa pra fazer. Sei lá, beber, encher o saco de alguém, fumar, zoar.
Fala sério... Se o crime é problema em algumas comunidades (e é claro que é), o problema não é a escola ter portas abertas. O problema é o crime em si. É a bandidagem assumir o controle das ruas, das quadras, do bairro todo. A molecada temer e admirar os bandidos; tê-los como modelo de sucesso.
Fechar mais a escola não vai ajudar nada, vai? Escola tem de ter menos muros, não mais. Sim, pode ter cadeados e grades para impedir que roubem equipamentos (pena que tenha de ser assim). Mas os muros a que me refiro são de verdade, muros de tijolos, não só os metafóricos. Estudos recentes demonstraram que casas com muros altos são mais assaltadas do que as outras – uma vez lá dentro, os bandidos ficam a salvo dos olhares de quem está fora. Se em vez de muros as escolas tiverem cercas (além de portas e braços abertos para atividades saudáveis de convivência), ajudam a mudar o seu entorno. Não resolvem todos os problemas, claro que não!, mas ajudam.
PS.: Isso me lembra a reação negativa de vizinhos do lugar em que aconteceu o acidente com o avião da TAM, quando o prefeito anunciou que faria ali uma praça e um memorial: "Praça não, atrai marginais!". Conseguimos viver em uma cidade que não quer praças... A menos que sejam "exclusivas", cercadas, verdadeiras áreas VIP no solo urbano.
Escrito por Soninha às 14h45
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De muitos a nenhum
Sobre a importância do diagnóstico correto e da atenção aos detalhes: Ontem, o vereador Chico Macena, do PT fez um pronunciamento na tribuna sobre o aumento no número de mortes no trânsito, especialmente pedestres e ciclistas. Depois conversamos sobre uma medida que ele adotou quando ainda era presidente da CET. Estudando o registro de acidentes por região da cidade, descobriu um lugar em que havia um número muito grande de atropelamentos de idosos. Por que? Uma agência da Caixa Econômica Federal ficava em uma avenida larga e movimentada. Os velhinhos compareciam em grande número para receber pensões e aposentadorias e tinham dificuldade para atravessar a rua com segurança. Se fosse aumentado o tempo do semáforo, o efeito sobre o trânsito da região seria muito ruim; ele teria de ser muito demorado e estaria sempre desencontrado dos outros. Se bobeasse, seria desrespeitado tantas vezes que precisaria haver vigilância permanente. No fim, o que eles decidiram fazer foi um canteirinho central, uma estação de parada no meio da travessia. Quem anda muito devagarzinho para ali e espera mais um pouquinho. Sabe o que aconteceu? Os atropelamentos ali foram reduzidos a ZERO. Simples assim.
Escrito por Soninha às 19h51
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Da série "Comentando uma entrevista"
Desta vez, a da Marta à Vejinha, duas semanas atrás
Veja São Paulo – Por que a senhora quer voltar a ser prefeita?
Marta Suplicy – São Paulo precisa de uma nova atitude. Vejo minha cidade numa situação caótica no trânsito, com uma administração que
não ousou o suficiente para atender a suas demandas. Creio ter as condições de dar respostas aos problemas gravíssimos enfrentados pelos paulistanos. Politicamente, tenho mais acesso ao governo federal, por ser do time do presidente.
>>>>> Essa última frase é a pura verdade – e uma lástima, e não um ponto positivo. O governo federal não pode permitir que uma cidade (a maior do país; a que mais contribui com impostos, mas ainda que não fosse...) tenha menos "acesso" a ele caso o prefeito ou prefeita não seja "do time do presidente". Aliás, o Lula vive se esforçando em tentar desmentir isso (que esteja favorecendo uma cidade porque o prefeito é aliado...).
Veja São Paulo – Qual é o principal problema da cidade hoje e como pretende enfrentá-lo?
Marta – Sem querer ignorar a situação difícil na saúde e na educação, diria que é o trânsito. O que pretendo fazer? Recuperar a capacidade
de gestão da CET e ampliar o bilhete único, que pode ganhar duração semanal, mensal ou até anual. A longo prazo, construir mais corredores de ônibus e linhas de metrô. Para a Copa do Mundo de 2014, precisaremos de mais 260 quilômetros de corredores e 65 de metrô.
>>>Já que o trânsito - eu prefiro dizer "mobilidade" - é o grande tema deste ano (e merece ser, porque tem implicações sérias em quase todos os outros), este comentário merece um espaço maior.
O Bilhete Único não foi uma invenção da administração do PT, visto que se trata de um sistema implantado em vários lugares do mundo e concebido e recomendado por especialistas ao longo de muitos anos de estudos, mas sem dúvida é uma grande realização do governo Marta – afinal, não adianta uma boa idéia existir e não ser implementada... Tem um monte delas por aí que governo nenhum executa.
Mas o que é o Bilhete Único? Um sistema que permite a baldeação, isto é, a integração de várias conduções com o pagamento de uma única passagem (ou com pequeno acréscimo, como acontece na integração com o metrô). Isso é e foi importantíssimo por várias razões: em primeiro lugar, sem dúvida, para o bolso do usuário (embora, infelizmente, tenha virado subsídio indireto para os patrões que puderam reduzir o valor do pagamento do Vale-Transporte, mas isso era difícil de evitar e não deveria mesmo impedir que o BU existisse).
Outro benefício paralelo, um efeito colateral positivo, foi a diminuição dos assaltos a ônibus, já que tem menos dinheiro no caixa do cobrador. E o embarque fica mais rápido - quem anda de ônibus sabe como era infernal ficar um tempão esperando a fila andar na catraca, enquanto o passageiro aguarda o troco. Quando as pessoas demoram a entrar no veículo, o trânsito fica parado atrás do ônibus, piorando o congestionamento. Eu lembro o quanto ficava louca da vida com as pessoas que não ficavam ao menos com o dinheiro na mão, mesmo que não fosse no valor exato...
Mas o grande benefício do bilhete único, que tem interferência sobre a cidade TODA (inclusive sobre quem nunca pega ônibus, como a ex-prefeita, hehehe) é mesmo decorrente da economia de dinheiro pelo usuário, por que?
Vou explicar. É meio óbvio, mas não é todo mundo que sabe qual é o conceito do sistema.
Para que ele funcione bem, algumas linhas mestras devem ser seguidas. Não basta só ter baldeações gratuitas e pistas exclusivas. Os corredores devem operar de modo troncalizado e funcionar como se fossem o "metrô sobre rodas". Os especialistas também estão cansados de saber disso, mas os governos Marta e Serra/Kassab não conseguiram colocar isso em prática...
Do ponto de vista do passageiro, é assim: quem espera um ônibus no corredor pega o primeiro ônibus que passar. Por que? Porque ele vai até o fim do corredor e acabou, assim como o metrô faz sempre o mesmo trajeto.Assim, você pode ter poucos e grandes veículos, com pequeno intervalo entre eles, percorrendo o corredor rapidamente. Nas pontas do corredor, o passageiro pega veículos menores, mais ágeis, que o levam até mais perto de casa ou do trabalho. Para fazer isso, é preciso que as transferências sejam fáceis e ágeis – o que seria impossível sem o Bilhete Único, porque seria caro e demorado.
Só que hoje você têm 'trocentas linhas que entram no corredor, passando antes e depois pelas ruas normais. O que acontece? Primeiro, você fica esperando passar um, dois, três ônibus até chegar o seu. E depois tem congestionamento de ônibus no corredor, um absurdo. Ônibus enormes percorrem ruas em que mal conseguem fazer a curva, e quando chegam no corredor, lotados, eles param – a ponto de, na M'Boi Mirim, por exemplo, as pessoas preferirem descer e andar a pé. Ou passar para as vans, que correm (lotadas também) por fora do corredor. Ou seja, é ruim pra todo mundo!
Corredor não é só uma pista segregada, é um modelo de operação. Que exige uma forte ação política para enfrentar os concessionários, claro – que, como empresários nesta beleza de sistema que acreditam ser o melhor do mundo (capitalismo), querem ganhar mais dinheiro com menos despesas. Cabe ao Estado usar seu braço forte para fazer valer o interesse público...
As empresas são as donas dos veículos, não das linhas. A prefeitura é quem as estabelece. E não precisa prejudicar ninguém; pode compensar as eventuais perdas de um concessionário em um trecho com uma nova concessão em outro.
Voltando à resposta da Marta. Ela fala em "ampliar o bilhete único, que pode ganhar duração semanal, mensal ou até anual". Como assim?? Não pode ser dentro do conceito de "baldeações gratuitas" - não é possível que você pegue um ônibus em janeiro com o B.U. e possa embarcar em outro em dezembro sem pagar uma nova passagem... Provavelmente, ela quis dizer que se você fizer recargas em determinado valor, correspondentes a um número maior de viagens e, portanto, a um espaço de tempo mais estendido, poderá ter descontos - como acontecia antigamente com o Múltiplo 10 do metrô, hoje substituído pelo Cartão Fidelidade. Mas isso não é exatamente "ampliar o bilhete único"; é conceder descontos para "compras no atacado". Em todo caso, pode confundir as pessoas, já que a atual administração levou a fama de "restringir o bilhete único". Por que? No fim da gestão da Marta, era possível fazer qualquer número de baldeações em duas horas. A atual gestão restringiu para no máximo 2 (ou seja, 3 conduções), para evitar fraudes.
Com ou sem fraudes, o sistema precisaria de ajustes que a gestão da Marta precisaria fazer. Para que seja sustentável financeiramente (já que o Tesouro injeta uma fortuna em recursos para pagar subsídio à tarifa e gratuidades, inclusive dessas segundas e terceiras viagens), precisa haver limites, senão o caixa arrebenta. É como subir a tarifa - de tempos em tempos, é preciso fazê-lo, e dói pra burro. Como os últimos a fazer as restrições e subir as tarifas foram os dois últimos prefeitos, isso será usado contra eles...
De toda maneira, "ampliar o bilhete único" não é bem uma solução para o transporte coletivo e o trânsito. Uma das medidas para que o trânsito melhore é fazer com que as pessoas troquem o transporte particular pelo coletivo. Convenhamos: a maioria absoluta das pessoas que andam sozinhas em seus carros e não de ônibus não o fazem por falta de dinheiro para pagar a condução... E se um dos motivos pelos quais o ônibus e até o metrô são desencorajadores é o fato de andarem lotados, baratear a tarifa (sem outras medidas que acompanhem) piora a situação. Quando foi feita a integração com B.U. entre ônibus e metrô, a ocupação do metrô aumentou 30%. E agora ele vive superlotado...
Tem de ter mais metrô (mas isso é caro e muito demorado), tem de haver mais corredores e bem operados, tem de haver linhas perimetrais que transformem o sistema mais em uma teia e menos em um asterisco, em que tudo converge para o centro e não há ligações diretas entre as pontas. Tem de ter tudo isso e mais ainda para que as pessoas troquem automóveis por transporte público (melhores informações, mais conforto e previsibilidade, melhor integração entre os vários meios, etc.). Mas se não diminuir a demanda, isto é, o número de viagens diárias - que as pessoas são forçadas a fazer por causa do abismo que existe entre as regiões da Grande São Paulo, com bairros distantes e municípios sem infra nenhuma, carentes de tudo, e muitos serviços concentrados na região central.
Mas voltemos à entrevista... (segue abaixo)
Escrito por Soninha às 21h29
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Da série "Comentando uma entrevista" - parte 2
Veja São Paulo – A senhora foi prefeita por quatro anos. Não acha que tem parte da responsabilidade pelo caos no trânsito, que já era um problema na sua gestão?
Marta – Pelo contrário. Enfrentamos a máfia de dirigentes do transporte para reformular os contratos das empresas com a prefeitura.
Havia ônibus com mais de dez anos e perueiros clandestinos enlouquecidos pelas ruas. Implantamos o bilhete único, que virou um modelo para todo o Brasil. Criamos 100 quilômetros de corredores, enquanto a atual administração construiu 7. Fizemos túneis importantes e um pedaço significativo da Radial Leste.
>>>>Outro dia, vi uma propaganda do PT na televisão afirmando que foram feitos sessenta e poucos km de corredor... Cem é que não foram! Como eu disse, o bilhete único é ótimo, o corredor que vem de Pirituba e passa por baixo do Minhocão parece que funciona muito bem, o da 9 de julho foi reformado e ficou muito melhor - mas a gestão da Marta não "criou 100 quilômetros de corredores"! Sobre os "túneis importantes", tsc tsc... As passagens subterrâneas da Rebouças e da Cidade Jardim têm sua utilidade local - aliviam um cruzamento - mas a importância estratégica para melhorar o trânsito da cidade é insignificante (ou nenhuma).
Veja São Paulo – A senhora cogita adotar medidas restritivas ao transporte individual, como o pedágio urbano ou a ampliação do rodízio? Marta – Nossas propostas passam pelo lado oposto. Quero que quem usa o transporte privado se sinta atraído por um transporte de qualidade. Como, por exemplo, na Avenida Rebouças. Muitas pessoas que faziam aquele percurso de carro passaram a usar o ônibus, que é mais rápido. Quanto ao metrô, perdemos muito tempo. Estive recentemente na China e vi que são construídos 20 quilômetros por ano em Pequim. Precisamos implantar esse ritmo alucinante aqui e temos condições de fazer isso por causa do boom econômico. Mas, se tivéssemos hoje 10 bilhões de reais para investir no metrô, não haveria licitações prontas ou projetos. De que chamo isso? Falta de planejamento. Que nome posso dar?
>>>> É verdade que, quase sempre, é muito melhor subir e descer a Rebouças de ônibus o que de automóvel. Mas se "muitas pessoas que faziam aquele percurso de carro passaram a usar o ônibus", não sei não... Até porque esse é um corredor que termina "no nada", ou melhor, na confusão comum do trânsito. Outro dia, minha filha levou 20 minutos do fim da Rebouças até o começo da Consolação. E é uma zona tão confusa para o tráfego que sequer é possível descer ali e ir a pé! Sobre o metrô: é verdade, o ritmo dos últimos anos foi de tartaruga (não de tatuzões, ehehe). Mas se ela pensou tanto em transporte na prefeitura, por que não encomendou projetos? Pelo custo dos benditos túneis, dava para investir em bom trecho de trilhos... Ah, sim, e tem o Fura Fila, que andou um pouquinho e logo ficou paradão...
Veja São Paulo – A senhora se compromete a não aumentar impostos como o IPTU ou a não criar outras taxas?
Marta – Vou diminuir as taxas. Já mandei um grupo estudar formas de reduzir a tributação para o cidadão paulistano. Não sei ainda que imposto será usado. A cidade vive outro momento, gente! Quando comecei
minha gestão, São Paulo tinha dívidas gigantescas. A receita de que dispunha era metade da atual.
>>>Eu sempre acreditei nessa história de "dívidas gigantescas". De fato, a situação não era das melhores, mas foi um pouco exagerada no começo da gestão. Depois, quando o caixa estava mais cheinho, começou a gastança, às vezes com coisas boas (tipo CEUs), às vezes com coisas ruins (tipo túneis). De todo modo, a receita aumentou muito mesmo, por obra de reengenharias do Serra - que conseguiu arrecadar mais sem aumentar impostos, com mecanismos engenhosos de combate à sonegação e cobrança de débitos muito atrasados. (A bancada do PT achava as medidas boas, mas tentava obstruir as votações justamente para não ter mais dinheiro em caixa e ser mais difícil fazer investimentos... "Sabe como é, não podemos perder de vista o jogo eleitoral de 2006, todo mundo sabe que o Serra só quer saber de ser presidente..."). Em todo caso, um governo de esquerda não é contra impostos, não... Eles são instrumentos de promoção da igualdade, justiça e desenvolvimento social. As reduções de impostos têm de ser usadas com essa mesma finalidade, de modo a permitir ou induzir investimentos que sejam de interesse da sociedade (gerando postos de trabalho nas áreas mais carentes, por exemplo, ou estimulando a manutenção de áreas verdes). Prometer "reduzir impostos" pra todo mundo pode soar muito bem, mas ter efeito negativo. (E não sei se são os tributos municipais os grandes culpados pela carga pesada que pagamos...)
Veja São Paulo – Que projeto ou obra seria a marca de um novo governo seu?
Marta – Ainda é cedo para dizer. Estou começando a me debruçar nos problemas da cidade. Mas certamente será marcante a recuperação do transporte. E também a inclusão social. Enquanto o sistema público não consegue tirar uma criança da favela, que seja capaz de tirar a favela de dentro dela com uma escola que ofereça oportunidades.
>>>>A primeira vez que alguém disse isso, foi uma sacada interessante. O autor (não lembro quem) estava falando sobre os CEUs. Mas quando vira refrão, fica meio sem sentido, até preconceituoso... Quer dizer que a "criança da favela" carrega "a favela" dentro dela? Ok, todos carregamos um pouco do lugar em que viemos. Mas se a favela tem coisas ruins, e a mais evidente é sua precariedade, também tem coisas boas, é óbvio. A violência não é culpa da favela... Dizer que "tem de tirar a favela de dentro da criança" equivale a dizer que favela = problemas e mais nada...
Marta - (...) E conseguir que os alunos fiquem mais tempo na escola, o que é um desafio gigantesco em São Paulo, em razão da quantidade de crianças. Como psicóloga e psicanalista, quero manter um olhar especial sobre as creches. Criança bem-cuidada nos primeiros anos de vida é a que vai ter oportunidades.
>>>>Verdade. Registre-se que a atual gestão tem se esforçado no sentido de aumentar a permanência na escola, com a redução do número de turnos e a inauguração de muitos novos prédios. Mas fico feliz que a Marta admita que isso é um "desafio gigantesco". É péssimo quando alguém faz parecer que tudo é muito fácil e não foi feito até hoje por falta de vontade. Vontade ("política", como costumam dizer) é fundamental e a falta dela realmente impede as coisas de acontecerem. Mas não é "só ter vontade"...
[continua abaixo]
Escrito por Soninha às 21h28
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Da série "Comentando uma entrevista" - 3
Veja São Paulo – Do que a senhora se arrepende de não ter feito em sua gestão?
Marta – Eu me arrependo de algo que fiz. Das taxas. Muito. Mas não havia recursos. Nossa administração foi bem difícil no começo, porque pegamos um momento pós-Maluf e Pitta. Uma cidade completamente depredada, em ruínas. As administrações regionais eram antros e não prestavam nenhum serviço. Criamos um plano diretor, o que não existia em São Paulo havia mais de dez anos. A folha de pagamento da prefeitura era feita a mão! Nós a informatizamos. Agora, olhando em retrospecto, eu me arrependo das taxas, sim. Apesar de termos boa intenção, a população já havia enfrentado aumento no IPTU e se sentiu
penalizada. É paradoxal, pois fui a prefeita que menos cobrou impostos em São Paulo. Na minha gestão, 62% dos contribuintes passaram a pagar menos IPTU. Ao mesmo tempo, outros 31% tiveram aumento, e aí acho que a mão pesou.
>>>>Verdade em parte. São Paulo tinha mesmo algumas coisas em ruínas - só a Saúde já seria (e é) uma herança maldita por anos e anos, depois do desmonte de Maluf e Pitta (e o Maluf apoiou a Marta no 2º turno em 2004!). As administrações regionais eram antros; as Subprefeituras foram um avanço. Só não se pode dizer que deixaram completamente de ser antros... Mas se arrepender das taxas é ceder ao discurso mais apelativo da oposição, que a apelidou de "Martaxa", certamente pq qualquer pesquisa indica que taxas têm rejeição e redução de impostos tem apoio. A taxa de lixo foi mal implementada porque foi mal explicada. Mas era um valor, na maioria dos casos, insignificante (R$6 por mês) - e por causa dela a adesão à coleta seletiva aumentou 400%.
Veja São Paulo – Por que os paulistanos não a reelegeram?
Marta – É uma questão que me coloquei muitas vezes. Acho que cometemos erros de verdade, como a tributação. E as pessoas acreditaram na proposta do outro, que prometeu fazer melhor o que a gente já fazia.
Veja São Paulo – Também havia e há, segundo as pesquisas, rejeição à sua imagem. Como pretende contornar isso na campanha?
Marta – Acho que você amadurece, em primeiro lugar. E acredito que as pessoas, depois de quatro anos, tenham avaliado melhor a posição que assumiram naquele momento. O machismo também pesa.
>>>Não é decisivo - tanto é que ela e a Erundina venceram eleições em São Paulo... - mas pesa, sim. A Veja chamar a Marta de "perua" (e dizer que não é ofensivo) é o fim da picada. E eu ficava doida com a campanha do Serra usando musiquinhas que diziam "Dona Marta". Golpe baixo.
Veja São Paulo – Alguns analistas creditam parte dessa rejeição ao fato de a senhora ter se separado do senador Eduardo Suplicy e se casado com o franco-argentino Luis Favre. Acredita que isso possa pesar na campanha deste ano?
Marta – Foi um item a mais num caldeirão que se colocou contra mim, mas não teve peso substancial. Hoje, a maioria das famílias tem alguém separado. Senti falta de pessoas que falassem em meu favor. Que vissem como ato de coragem uma pessoa se apaixonar e, em vez de levar uma vida paralela, assumir e prestar satisfação à sociedade. E, inclusive, se casar. A maioria dos políticos não se porta assim. Fui coe-rente com minha vida e minhas posturas.
>>>Concordo plenamente. Eu achava um absurdo as pessoas considerarem a separação do Suplicy uma traição política. Então uma pessoa deve ficar casada só para não decepcionar o eleitorado? Absurdo. Concordo com ela, é uma hipocrisia. E uma sacanagem usarem o fato de o Favre ser "meio argentino" como um veneno a mais. Ridículo. (Pode-se não gostar do Favre por outros motivos, mas a Marta se separar do Suplicy e se casar com outra pessoa é da conta só dela. Aliás, o Suplicy pode namorar e tudo bem? É machismo mesmo).
Veja São Paulo – Nesta eleição, a senhora vai enfrentar outro problema em relação à imagem, a sugestão para os passageiros vítimas do apagão aéreo: "Relaxa e goza". Como pretende lidar com essa questão?
Marta – Considero uma página virada, no sentido de que foi uma frase infeliz, pela qual pedi desculpas horas depois. Acho que a grande maioria da população entendeu a situação em que disse aquilo e me perdoou. Uma vida pública de vinte anos não pode ser destruída por uma frase infeliz. Eu me sinto tranqüila. Podem eventualmente usar isso contra mim, mas não creio que vá trazer votos a quem o fizer. E, depois, quem é que nunca disse uma frase infeliz?
>>>>>Verdade. Foi uma frase infeliz - típica de quem tem medo de dizer alguma coisa errada, e acaba se saindo pior (acontece com políticos o tempo todo). Manja quando "tudo que você dizer poderá ser usado contra você" - ou "contra o seu governo"? Mas a reação foi exagerada (quando o ACM disse para uma mulher na porta do Senado "sai daqui, sua puta", ficou por isso mesmo). Associar a frase ao acidente da TAM, então, foi um crime. Em todo caso, assim como todo mundo já disse uma frase infeliz, todo mundo adoora usar uma frase infeliz contra o adversário - e o PT não é diferente... (Não gosto quando meu partido faz isso também).
Veja São Paulo – Qual foi o melhor prefeito que São Paulo já teve?
Marta – Em termos de pensar a cidade, Prestes Maia e Faria Lima. No que diz respeito à inclusão social, nossa gestão foi muito importante.
>>>>Todo mundo adora dizer "Prestes Maia", mas não sei não... Vou estudar melhor. Acho que ele deixou esse sistema viário todo orientado para o centro que é meio problemático, mas não tenho toda segurança do mundo para dizer isso.
Veja São Paulo – Incomoda-a quando comentam seu gosto para se vestir ou seu guarda-roupa?
Marta – Sou uma pessoa vaidosa, então não me provoca incômodo dizerem que estou bem-arrumada. Só quando isso vai além do que devia. É mais uma qualidade e um esforço do que qualquer coisa, mas devia passar despercebido. É "ça va sans dire" (algo como "dispensa comentários", em francês). Quem está no serviço público precisa se apresentar bem porque é visto e fotografado o tempo inteiro. Mulher sempre paga um preço. Se aparece desarrumada, acham que está deprimida. Se demora a retocar a tintura do cabelo, a chamam de relaxada.
>>>Bom, podem me chamar de deprimida ou relaxada... :o) (Às vezes estou deprimida, mas sou feliz desarrumada).
Veja São Paulo – A senhora acha que tem uma imagem de arrogante?
Marta – Às vezes desconfio que sim. Algumas pessoas, depois de me conhecer, contam que me imaginavam muito diferente. Quando tento entender, vejo que era por me acharem arrogante. Mulher é assim: se é gentil e doce, classificam de incompetente. Se é firme e forte, chamam de arrogante. Se tem poder, então, vira insuportável. E você não pode exercer o poder se não for firme. É uma imagem que nós, mulheres, vamos ter de conquistar e mudar. As grandes líderes do século passado, como Golda Meir, Indira Gandhi e Margaret Thatcher, eram todas mulheres travestidas de homens. A geração do século XXI não quer isso. Políticas como Ségolène Royal, Cristina Kirchner e Michelle Bachelet são muito femininas. A Angela Merkel até pôs um decote ousado outro dia. Fui uma desbravadora, primeiro no programa TV Mulher, depois no exercício da política, pagando todos os preços nas duas experiências.
>>>Hmmm... É verdade que pegam mais no pé de mulher do que de homem (nunca vi chamarem alguém de "peru" por ser vaidoso). Mas tem mulher que é arrogante mesmo, uai.
Veja São Paulo – Qual é sua maior qualidade?
Marta – Não tenho medo de pensar o novo. Estou sempre em busca de solução. Eu decido.
>>>>Acredito.
Veja São Paulo – E o maior defeito?
Marta – Impaciência. Quero tudo para ontem.
>>>>Discordo :o)
Escrito por Soninha às 21h25
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Pesos e medidas
Estou
para concluir há um tempão (mais) um texto sobre “a mídia e o PT”.
Realmente,
o tratamento dado a qualquer coisa relacionada ao partido é muito diferente do
que é dado aos outros. E isso é muito, muito ruim. Pra todo mundo, não só para o
PT e os petistas.
Em
um ranking sem rigor muito científico mas muitas evidências, pode-se dizer
tranqüilamente que o PT é o mais sacaneado. Isto é, o mais citado em notícias
negativas. Aí, numa tentativa de “equilibrar” as coisas (como se ser ruim para
os dois lados resolvesse), o PSDB ocasionalmente (mas em proporção beeeeem
menor) é questionado. E nenhum dos outros partidos (nem o meu) é tratado como
uma instituição em que todos devem responder por todos.
"Da Força"
Exemplo:
Paulinho “da Força” está sendo alvo de acusações muito graves, com indícios
fortes ou provas contra ele. Vários deputados do seu próprio “campo” (base do
governo) já falaram na possibilidade concreta de cassação. Alguns podem
estar seriamente interessados na moralização do Congresso e outros apenas
querendo evitar respingos, mas o fato é que o tema é seriíssimo. Até outro dia,
Paulinho estava prestes a disputar a prefeitura de São Paulo. Mas as palavras
“PDT” e “pedetistas” não aparecem nos jornais com mais freqüência do que antes.
A tribuna da Câmara não foi tomada por discursos cobrando do PDT “ética e
honestidade”. Jefferson Perez (de quem eu gostava muito) não foi incomodado,
antes de morrer, tenho de responder sobre as acusações contra o deputado ou
contra o Carlos Lupi (Ministro do Trabalho). No PDT, acusações são nominais,
pontuais, e não à legenda como um todo.
"Do
Ceará"
Recentemente,
houve um escândalo envolvendo Cid Gomes, governador do Ceará (e irmão do Ciro).
“Passeou” pela Europa no Carnaval levando a esposa e a sogra, dois assessores e
suas esposas em jatinho pago pelo governo do estado. Ele alega que a empresa
cobra por quilômetro e não por passageiro, portanto os convidados não custaram
nada mais ao estado. E que a sogra precisava ir para fazer companhia à esposa,
enquanto ele cumpria agendas oficiais. (Hmm, não levasse a esposa...). Mas
o mais grave é que se ele tivesse comprado passagens de primeira classe para
todo mundo, o que já seria um absurdo, ainda sairia mais barato do que os
TREZENTOS E OITENTA E OITO MIL E QUINHENTOS REAIS pagos pelo jatinho.
Pois
bem, vejam uma manchete do Estadão sobre o tema: "Cid Gomes se desculpa por dar 'carona' em
avião à sogra - Governador do Ceará se desculpa por 'constrangimento', mas diz
não ter cometido nenhum ato ilegal ou imoral".
NENHUMA
referência no título ou sub-título ao partido do governador – que é da base do
governo Lula. Ou seja, mais do que “oposicionismo” (que, quando é fanático, está
tão errado quanto o “governismo”), o jornal sofre mesmo de anti-petismo. Porque
o certo, para manter o padrão, seria destacar que ele é do PSB. Referir-se a ele
como “o pessebista”. E fazer surgir uma onda de questionamentos ao padrão ético
do partido que constrangesse todos os seus membros – chegando, por exemplo, à
deputada Luiza Erundina. Seria justo com ela fazer com que respondesse pela
liberalidade do governador com recursos públicos? Não! Mas TODO petista é
confrontado com perguntas sobre TODO desvio de algum membro do partido.
“Vereador petista é cassado no interior de Minas” vira munição contra o Lula...
Abastece o caldeirão de ódio ao partido em nível nacional. E de ódio do partido
contra todo mundo.
Errado,
errado, errado. O ódio, a polarização e rejeição extremas, o maniqueísmo, tudo
isso turva a visão, intoxica o debate.
"Do
PT"
Quando
uma menina foi detida em uma cela com homens e violentada inúmeras vezes no
Pará, esse virou de novo um escândalo contra o PT. “E a governadora é mulher!”.
Como se ela tivesse alguma condição de saber o que acontecia na carceragem de
uma delegacia em uma cidade a mais de 100km da capital. Mas, acima de tudo, a
governadora era petista...
Quando
há problemas (igualmente graves e ainda mais visíveis e previsíveis) nas cadeias
e distritos policiais do Ceará, Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Mato Grosso,
a expressão “governo do estado” mal aparece no noticiário. No máximo, chegam até
o Secretário Estadual. Mas a "governadora petista" foi condenada pela opinião
pública no caso da menina.
"Do
Rio de Janeiro"
Outro
caso de arrancar os cabelos é o das denúncias contra Garotinho e Álvaro
Lins, embasadas em fatos cada vez mais difíceis de desmentir (as acusações são
antigas), de uso da máquina pública, especialmente a da Segurança, para fins
condenáveis. Cadê as manchetes com PMDB em letras garrafais, os
editoriais condenando os peemedebistas? Cadê os questionamentos a Michel Temer,
Pedro Simon, Sergio Cabral, Geddel, Sarney? Garotinho pleiteou a
candidatura à presidência outro dia, mas o seu partido não está em xeque...
"Gaúcho"
Agora,
com exposição pública do que o PSDB parecia nunca ter ouvido falar (a
estratégia de se obter maioria na Parlamento oferecendo cargos na administração
pública, não exatamente em função da competência), por que ninguém fala em
"mensalinho tucano?". Depois da crise no governo tucano do Rio Grande do
Sul, cadê questionarem (em ordem alfabética) Aécio Neves, Artur Virgílio,
Geraldo Alckmin, José Serra, Tasso Jereissati? Só os petistas (ou anti-tucanos)
fazem isso. Não vemos um escândalo tucano acontecendo em rede nacional... O
Secretário da Casa Civil que foi gravado admitindo que os partidos da base
aliada usam cargos em benefício próprio era do PPS. Eu mesma só recebi dois
questionamentos por email... (“O que o seu partido tem a dizer sobre isso?”).
Naturalmente, de petistas. Ninguém mais está preocupado com isso.
Preto X
branco, Flamengo X Fluminense, Israel X Palestina
Eu
detesto exagero, perseguição, falso moralismo, hipocrisia – e exagero
e perseguição acontecem com muita freqüência quando é alguém do PT que
está na berlinda. Em represália, petistas e simpatizantes reagem na mesma
medida quando o alvo é do PSDB. Grande vantagem -- um fica sem os dois olhos, o
outro sem um.
Dado
o desequilíbrio no noticiário, petistas vão achar – ou vão dizer, mesmo sem
achar – que denúncias contra PT e governo Lula são sempre falsas,
conspiração, golpe das elites. E vão partir do princípio que qualquer notícia
contra o PSDB será sempre verdadeira -- se a mídia é tucana, quando sai uma
denúncia contra o PSDB é porque é para valer! A “mídia alternativa”
usará de exagero e ódio contra os tucanos em medida correspondente à dos
“hidrófobos” anti-petistas. Entre mortos e feridos, dançamos
todos.
Alguns
exemplos
Vejam
aqui
o que o JB teve a capacidade de fazer. Caso o texto já tenha sido corrigido,
informo o que ele dizia - "Corrupção
abala governo do PT" - "Yeda Crusius vai mexer no alto escalão gaúcho".
Barbaridade, que fixação!
Da
Folha Online hoje (quinta): “PF
prende prefeito de Juiz de Fora e mais 13 por desvio de dinheiro
público”. E
o prefeito tem partido? Claro que tem: PTB. Está na matéria, mas não no
título...
Eu
tenho uma coleção de manchetes e chamadas assim. Quando o partido é o PT, ele
aparece no título ou sub-título em 99% dos casos. Quando é o PSDB, em 50%.
(Cássio da Cunha Lima, por exemplo, era apenas "governador da Paraíba" quando
enfrentou um processo de cassação - não era "tucano"). Quando é outro partido, a
incidência é ocasional.
Não
custava nada, nada mesmo, usar rigor semelhante com todo mundo. Dá o mesmo trabalho, e o resultado é
completamente diferente. E rigor não significa ser escandaloso, agressivo,
debochado. Significa verificar seriamente a veracidade do que se publica antes
de escrever sentenças condenatórias com um ou outro “supostamente” enxertado no
texto para fingir cautela. Significa ser responsável, correto, justo – será uma
aspiração ir |